Governo Federal concede anistia política a Iris Rezende

GI­SEL­LE VA­NES­SA CAR­VA­LHO – Es­pe­ci­al pa­ra o Jor­nal Op­çãoDe 02 a 07 de maio de 2010

Qua­se 41 anos de­pois de se tor­nar um dos per­se­gui­dos po­lí­ti­cos bra­si­lei­ros, o ex-pre­fei­to de Go­i­â­nia, Iris Re­zen­de (PMDB) foi anis­ti­a­do na úl­ti­ma ter­ça-fei­ra, 27, pe­lo Go­ver­no Fe­de­ral. Du­ran­te a 36ª Ca­ra­va­na da Anis­tia, re­a­li­za­da na ci­da­de de Aná­po­lis, dis­tan­te 55 qui­lô­me­tros de Go­i­â­nia, a Co­mis­são de Anis­tia do Mi­nis­té­rio da Jus­ti­ça de­ci­diu por in­de­ni­zá-lo em R$ 100 mil.

O be­ne­fí­cio foi jus­ti­fi­ca­do pe­los pre­ju­í­zos que a per­da do man­da­to, em 17 de ou­tu­bro de 1969, oca­si­o­na­ram ao pe­e­me­de­bis­ta du­ran­te o re­gi­me mi­li­tar bra­si­lei­ro. À épo­ca Iris era pre­fei­to de Go­i­â­nia. Emo­cio­na­do, o ago­ra anis­ti­a­do po­lí­ti­co, de­ci­diu por do­ar os 300 sa­lá­ri­os mí­ni­mos pa­ra três en­ti­da­des fi­lan­tró­pi­cas de Aná­po­lis: Ins­ti­tu­to Cris­tão Evan­gé­li­co, San­ta Ca­sa de Mi­ser­cór­dia e Hos­pi­tal Psi­qui­á­tri­co. O va­lor se­rá ra­te­a­do em três par­tes igua­is.

No jul­ga­men­to, Iris nar­rou aos mem­bros da co­mis­são as per­se­gui­ções e in­jus­ti­ças so­fri­das du­ran­te o pro­ces­so que cul­mi­nou na des­ti­tui­ção do car­go de che­fe do exe­cu­ti­vo mu­ni­ci­pal e na con­se­quen­te sus­pen­são dos di­rei­tos po­lí­ti­cos. Por cau­sa da di­ta­du­ra mi­li­tar, o pe­e­me­de­bis­ta foi con­de­na­do a se afas­tar da vi­da pú­bli­ca por dez anos. A de­ci­são so­bre a ne­ces­si­da­de de in­de­ni­za­ção por cau­sa da cas­sa­ção dos di­rei­tos po­lí­ti­cos de Iris foi unâ­ni­me.

“Ve­nho em res­pei­to a es­se gru­po de tra­ba­lho do Mi­nis­té­rio da Jus­ti­ça, do­ta­do de mui­to sen­ti­men­to cí­vi­co, que con­vo­ca a to­dos aque­les e aque­las que fo­ram ví­ti­mas da di­ta­du­ra, uns com pri­sões, ou­tros com cas­sa­ções, ou­tros com apo­sen­ta­do­ri­as com­pul­só­rias, pa­ra dei­xar re­vis­tas es­sas in­jus­ti­ças na his­tó­ria, pa­ra que fu­tu­ras ge­ra­ções não te­nham en­ten­di­men­to di­fe­ren­te àque­les que num mo­men­to tris­te da po­lí­ti­ca na­ci­o­nal fo­ram ví­ti­mas de­la”, afir­mou.

Du­ran­te o pro­nun­ci­a­men­to, o pre­si­den­te da Co­mis­são de Anis­tia do Mi­nis­té­rio da Jus­ti­ça, Pau­lo Abrão, rei­te­rou com ve­e­mên­cia a ne­ces­si­da­de do Es­ta­do se des­cul­par pu­bli­ca­men­te e res­ga­tar as in­jus­ti­ças co­me­ti­das du­ran­te o pe­rí­o­do di­ta­to­ri­al. “É pre­ci­so que es­te ato sir­va pa­ra que não ha­ja mais o cei­fa­men­to da li­ber­da­de de pen­sa­men­tos, pa­ra que não ha­ja mais le­sões à in­te­gri­da­de fí­si­ca e psi­co­ló­gi­ca, pa­ra que não ha­ja mais um es­ta­do au­to­ri­tá­rio ca­paz de ba­nir seus ci­da­dã­os do pa­ís. Nos­so com­pro­mis­so é com a ver­da­de e com a Jus­ti­ça”, ar­gu­men­tou, Pau­lo Abrão

Ape­sar do pe­di­do ofi­ci­al de des­cul­pas da Na­ção, Iris afir­mou que já ha­via si­do anis­ti­a­do pe­la po­pu­la­ção de Go­i­ás des­de o mo­men­to que, por meio do vo­to, lhe de­vol­veu o di­rei­to à vi­da pú­bli­ca. “Ten­ta­ram ca­lar mi­nha voz em 1969 quan­do ti­ve meu man­da­to co­mo pre­fei­to de Go­i­â­nia cas­sa­do e meus di­rei­tos po­lí­ti­cos sus­pen­sos por 10 anos. Mas se­gui mi­nhas con­vic­ções e fui ab­sol­vi­do pe­lo po­vo de Go­i­ás que tan­tos fi­lhos per­deu pa­ra o re­gi­me di­ta­to­ri­al. Ho­je re­ce­bo a de­mons­tra­ção cí­vi­ca do sen­ti­men­to de pá­tria. O po­vo não po­de de­sa­pren­der o exer­cí­cio da ci­da­da­nia”, acres­cen­tou, emo­cio­na­do, so­bre as pos­te­rio­res elei­ções pa­ra go­ver­na­dor de Go­i­ás, se­na­dor da Re­pú­bli­ca e pre­fei­to de Go­i­â­nia. Iris tam­bém foi mi­nis­tro da Agri­cul­tu­ra e da Jus­ti­ça.

Com a de­ci­são da Co­mis­são, aos 75 anos, Iris tor­na-se o se­gun­do ex-mi­nis­tro da Jus­ti­ça a re­ce­ber as des­cul­pas ofi­ci­ais do Es­ta­do. O pri­mei­ro foi Abe­lar­do de Araú­jo Ju­re­ma, em 1979.

Além do ca­so de Iris Re­zen­de, a Co­mis­são ana­li­sou ou­tros 68 pro­ces­sos na se­de do Cen­tro Uni­ver­si­tá­rio Uni-Evan­gé­li­ca. En­tre os apro­va­dos, es­tá re­pa­ra­ção eco­nô­mi­ca ao ex-go­ver­na­dor Hen­ri­que San­til­lo, que mor­reu em 25 de ju­nho de 2002. Os R$ 244 mil re­tro­a­ti­vos à re­mu­ne­ra­ção do mé­di­co des­de 2004 e uma pen­são vi­ta­lí­cia de R$ 3,2 mil se­rão pa­gos à vi­ú­va de Hen­ri­que, Sô­nia San­til­lo. Hen­ri­que foi ve­re­a­dor e pre­fei­to de Aná­po­lis, de­pu­ta­do es­ta­du­al, se­na­dor, go­ver­na­dor de Go­i­ás e mi­nis­tro da Sa­ú­de.

En­tre as au­to­ri­da­des pre­sen­tes na 36ª Ca­ra­va­na da Anis­tia, es­ta­vam os pre­fei­tos de Go­i­â­nia, Pau­lo Gar­cia (PT), e de Ana­pó­lis, An­tô­nio Go­mi­de (PT). Mais de 200 es­tu­dan­tes de Di­rei­to tam­bém es­ti­ve­ram pre­sen­tes no au­di­tó­rio do Uni­E­van­gé­li­ca.

Além de Go­i­â­nia e Aná­po­lis, a co­mis­são jul­gou pro­ces­sos de per­se­gui­dos po­lí­ti­cos das ci­da­des de Trom­bas de Go­i­ás (For­mo­so) e Go­i­a­ná­po­lis. A Ca­ra­va­na tam­bém pres­tou ho­me­na­gem à ana­po­li­nos anis­ti­a­dos co­mo o ex-ve­re­a­dor Ge­ral­do Ti­búr­cio, o jor­na­lis­ta Ha­rol­do Du­ar­te, o mi­li­tan­te po­lí­ti­co Cló­vis Bu­e­no e os ad­vo­ga­dos Car­los Men­des e Ma­ris­te­la Du­ar­te Men­des.

Em quatro anos, indenizações custaram mais de 18 milhões ao Estado

Até o pri­mei­ro se­mes­tre do ano pas­sa­do, as re­pa­ra­ções eco­nô­mi­cas aos go­i­a­nos que so­fre­ram per­se­gui­ção po­lí­ti­ca en­tre o dia 18 de se­tem­bro de 1946 e 5 de ou­tu­bro de 1988 ha­vi­am cus­ta­do mais de R$ 18 mi­lhões aos co­fres pú­bli­co. O mon­tan­te foi gas­to pe­lo Es­ta­do de Go­i­ás em qua­tro anos de pa­ga­men­to a 190 ví­ti­mas do re­gi­me di­ta­to­ri­al bra­si­lei­ro.

In­for­ma­ções da Se­cre­ta­ria de Se­gu­ran­ça Pú­bli­ca ates­tam gas­tos men­sais da or­dem de R$ 315 mil ape­nas pa­ra pa­ga­men­to das pen­sões vi­ta­lí­cias. Anual­men­te, o im­pac­to che­ga a R$ 3,7 mi­lhões. Ago­ra, se­rão so­ma­das a es­ses va­lo­res as in­de­ni­za­ções con­ce­di­das na úl­ti­ma ter­ça-fei­ra du­ran­te a 36ª Ca­ra­va­na da Anis­tia.

No Es­ta­do, já eram con­si­de­ra­dos anis­ti­a­dos ci­da­dã­os co­mo Olympio Jayme, Mau­ro Bor­ges, Ruy Ro­dri­gues e a vi­ú­va de He­li Mes­qui­ta. To­dos es­ses re­ce­bem pen­são es­ta­du­al de até R$ 6 mil men­sais. Além de po­lí­ti­cos, a lis­ta de go­i­a­nos be­ne­fi­ci­a­dos com a re­pa­ra­ção é com­pos­ta por pro­fis­si­o­nais co­mo ad­vo­ga­dos, jor­na­lis­tas, pro­fes­so­res e pe­drei­ros.

O ca­so do can­tor Ama­do Ba­tis­ta ilus­tra bem a di­fe­ren­ça de per­fil en­tre as ví­ti­mas da di­ta­du­ra. Por ter si­do pre­so e tor­tu­ra­do por dois mes­es pe­la Po­lí­cia Fe­de­ral sob ale­ga­ção de ser ami­go de opo­nen­tes do go­ver­no, o mú­si­co re­ce­be pen­são men­sal de R$ 1,2 mil. Se­gun­do a As­so­cia­ção dos Anis­ti­a­dos de Go­i­ás (Ani­go), 88% dos anis­ti­a­dos re­ce­bem men­sal­men­te re­pa­ra­ção eco­nô­mi­ca vi­ta­lí­cia des­se mes­mo va­lor.

De acor­do a Ani­go, den­tre os 190 anis­ti­a­dos go­i­a­nos, 45 re­ce­bem da Uni­ão e do Es­ta­do. Até ho­je, qua­tro ví­ti­mas de­sis­ti­ram de re­ce­ber a pen­são do Es­ta­do e re­cor­re­ram ao Go­ver­no Fe­de­ral. Em Go­i­ás, os be­ne­fi­ci­a­dos têm ida­de mé­dia en­tre 60 a 70 anos.

In­de­ni­za­ções mi­li­o­ná­rias

Em to­do Pa­ís, a Co­mis­são de Anis­tia do Mi­nis­té­rio da Jus­ti­ça apon­ta que os be­ne­fí­ci­os ge­rem des­pe­sas su­pe­ri­o­res a R$ 2,5 bi­lhões. Es­te ano, co­mo a in­clu­são de no­mes na lis­ta de anis­ti­a­dos, cal­cu­la-se que a con­ta de­ve al­can­çar a ca­sa dos R$ 4 bi­lhões.

Há ca­sos de in­de­ni­za­ções mi­li­o­ná­rias co­mo a do em­pre­sá­rio El­mo Sam­paio, que re­ce­beu R$ 1 mi­lhão por ter per­di­do em­pre­go na Pe­tro­brás, além de re­ce­ber R$ 8 mil por mês de pen­são. Os car­tu­nis­tas Zi­ral­do e Ja­gu­ar tam­bém re­ce­be­ram ci­fras mi­li­o­ná­rias e di­rei­to a pen­são men­sal de R$ 4,5 mil.

Ape­sar de ter si­do cri­a­da no ano de 2001, as in­de­ni­za­ções ga­ran­ti­das gra­ças à vi­gên­cia da Lei da Anis­tia só co­me­ça­ram a ser pa­gas em mar­ço de 2005. À épo­ca, a Co­mis­são foi ins­tau­ra­da com o pro­pó­si­to de ana­li­sar pe­di­dos de in­de­ni­za­ção das ví­ti­mas po­lí­ti­cas por do­en­ças, tran­stor­no men­tal, in­va­li­dez e mor­te. Ho­je já não é pos­sí­vel re­que­rer in­de­ni­za­ção po­lí­ti­ca por meio do go­ver­no do Es­ta­do, ape­nas jun­to à Uni­ão.

Pa­ra con­se­guir a anis­tia, o in­te­res­sa­do de­ve en­ca­mi­nhar pe­di­do à Co­mis­são e re­u­nir as pro­vas da per­se­gui­ção po­lí­ti­ca (co­mo có­pi­as de in­qué­ri­to po­li­ci­al, pri­são ou de­mis­são in­jus­ti­fi­ca­da). O va­lor e o ti­po de re­pa­ra­ção ma­te­ri­al va­ri­am de acor­do com o vín­cu­lo de tra­ba­lho dos anis­ti­a­dos na épo­ca em que fo­ram per­se­gui­dos.

O ar­ti­go ter­cei­ro da lei go­i­a­na pre­vê que se o anis­ti­a­do re­ce­be re­pa­ra­ção eco­nô­mi­ca da Uni­ão, não po­de re­ce­ber a in­de­ni­za­ção do Es­ta­do de Go­i­ás pe­lo mes­mo mo­ti­vo. No en­tan­to, se um mi­li­tan­te po­lí­ti­co per­deu a fun­ção pú­bli­ca em Go­i­ás e de­pois so­freu tor­tu­ras na pri­são em ou­tro Es­ta­do, há co­mo pe­dir re­pa­ra­ção ao Es­ta­do e ao Go­ver­no Fe­de­ral.

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3 pensamentos sobre “Governo Federal concede anistia política a Iris Rezende

  1. goias ainda existem coroneis politicos ? pouca vergonha para um estado
    tao bonito, cada um mais corruptos de que o outro este marcone perilo nao
    vale nada… sem comentario

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  2. Pingback: Os números de 2010 « @luizzmendes

  3. gostei desta reportagem, e gostaria mais ainda se minha mãe recebe-se indenização pela prisão de meu pai José Danezi Piantino (falecido) preso em Anápolis GO, no dia do meu aniversario de 1 ano, 31/03/1963 tenho isto engasgado até hoje no meu subconsiente e no meu consiente foi tempos dificeis desses coroneis sem escrupulos.

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