Tertúlia Literária e Saramago

Uma vez por mês, nos reunimos na casa de algum amigo para conversar sobre um livro literário. Somos um pequeno grupo que compartilha o fascínio pelos livros. Nossas reuniões se iniciaram em 2016 a partir de um projeto de extensão criado por mim na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. O projeto foi tão bom que mesmo após o seu fim resolvemos dar continuidade fora da Universidade.

Clique aqui e veja a análise do livro “A Caverna”, de Saramago, nossa última leitura. O texto completo , com as impressões do grupo, está no blog “Litteratus“, da nossa colega Priscila Lima.

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Borges: leitura e memória

A Biblioteca de Babel: universal, infinita, interminável.


Jorge Carrión, escritor espanhol, ao tratar da misteriosa relação entre a memória e a leitura, recomenda, no seu mais recente livro – Livrarias: uma história da leitura e de leitores (Bazar do Tempo, 2018) – três contos do escritor argentino Jorge Luis Borges: “A Biblioteca de Babel”, de 1941; “Funes, o memorioso”, de 1942 e ainda “O Aleph”, publicado em 1945.

Atendendo à recomendação, li os dois primeiros e reli “O Aleph”.  De fato, são contos para quem gosta de livros e dos seus prazeres. A propósito dos prazeres da leitura, Carrión cita também, no seu livro, o slogan da Livraria Foyles, em Londres, estampado na entrada da loja: “Welcome, book lover, ou are among friends”. Em português: “Bem-vindo, amante dos livros, você está entre amigos”.

A Biblioteca de Babel

“A Biblioteca de Babel” é um clássico do grande mestre argentino.  Neste conto Borges mostra que o Universo é, na verdade, uma grande biblioteca, infinita, interminável. “O Universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente”.

Essa imensa biblioteca, que Borges viu em 1941, antecipou o futuro, antecipou o que vivemos hoje, com o google: “Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens sentiram-se senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: em algum hexágono. o Universo estava justificado, o Universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança”.

“O Aleph”, por sua vez, revela a existência de um ponto, um pequeno círculo, situado em um sótão, na casa de uma mulher outrora desejada, Beatriz Elena Viterbo, localizada na rua Garay, em Buenos Aires. Este pequeno circulo – o Aleph -, revela, para quem tem o privilégio de olhar, nada mais, nada menos que o próprio Universo.

“O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres)…”

“O Aleph”, segundo o próprio Borges, foi influenciado pelo conto “O ovo de cristal”, do escritor britânico H. G. Wells, publicado em 1899.

Outro conto fantástico: “Funes, o memorioso”. Conta a história de Irineu Funes, um rapaz que, após um grave acidente, na cidade em que morava (Fray Bentos, no Uruguai), ficou paralítico, sem esperança, mas que, a partir de então, adquiriu uma memória prodigiosa. Agora sua percepção e sua memória eram infalíveis, o que levou Funes a considerar a imobilidade um preço barato.

Livraria Leodegária

Estive na cidade de Goiás neste mês de fevereiro, com duas motivações: participar do projeto Quintal Medicinal, realizado no Mosteiro da de Goiás, pela Fraternidade da Anunciação e conhecer a Livraria Leodegária, que fica no tradicional Mercado Municipal de Goiás.

A livraria foi fundada em agosto de 2018, com o objeto de criar, na cidade de Goiás, um ponto cultural, um local de encontro entre livreiros, escritores, leitores e amantes da cultura em geral. A iniciativa foi das pro­fessoras Ebe Lima Siqueira, Edina Ázara e Goiandira Ortiz.

Um registro interessante: em entrevista concedida ao site PublishNews Goiandira comentou que a última livraria de que se tem notícia na cidade de Goiás funcionou na década de 1920. Sua iniciativa traz, pois, uma luz neste deserto de letras, ou melhor: neste deserto de livrarias.

O nome da livraria é uma home­nagem à professora e poeta Leode­gária de Jesus, primeira mulher no estado de Goiás a publicar um li­vro de poesias. Leodegária nasceu em 1889 e viveu na cidade de Goiás, tendo sido contemporânea de Cora Coralina, com quem trocou inúmeras figurinhas literárias, como, por exemplo, a fundação do jornal literário “Rosas”. Além de mulher, Leodegária era negra e publicou os livros “Corôa de Lyrios”, em 1906 e “Orchideas”, em 1928. Jovem, mulher e negra: nessa condição Leodegária enfrentou as tradições machistas de Goiás, vindo daí a homenagem que hoje recebe.

A Livraria tem hoje um acervo com 600 títulos.

GOANDIRA Ortiz, professora e livreira, nos recebeu com simpatia, falando do seu projeto, das suas expectativas e esperanças com a livraria. Comprei dois livros – “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa e “Tropas e Boiadas”, do nosso Hugo de Carvalho Ramos. Trouxe também alguns mimos: uma camiseta, uma caneca e um vidrinho de pílulas com a poesia de Cora Coralina. Vou tirar uma, vamos ver o quem dentro: “Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho / Seu cheiro gosto d’agua e sabão”.


A ilustradora Ciça Fittipaldi  esteve na Livraria divulgando livros de arte.

A Caverna

Tenho vários livros do escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura (1988), mas esta é a primeira vez que leio um deles, de ponta a ponta. Trata-se do livro “A Caverna”, publicado no ano de 2000. Outros livros – Memorial do Convento (1982), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a Cegueira (1995), A Viagem do Elefante (2008), Caim (2009), etc. – não foram lidos assim, de ponta a ponta. Foram lidos em parte, o primeiro capítulo, a orelha, alguns apenas folheados…

Mas agora, participando deste maravilhoso grupo de leitura – Tertúlia Literária, que vem se reunindo desde 2015 (veja lá no Instagram: #tertulianos2015) –, a coisa mudou de figura. Com a coordenação da psicóloga Priscila Lima, do blog Littetatus, a leitura ficou mais consistente, mais séria, um verdadeiro estudo, aliás, como deve ser. Tudo isso sem, naturalmente, excluir o prazer da leitura. Agora os livros são lidos até o último capítulo, ficamos sabendo como é o final da história…

A reunião para comentar sobre a obra do escritor Saramago aconteceu neste sábado – 16/2 – na casa da Drª Marluce, médica e apaixonada pela literatura, e foi uma das melhores. Veja a avaliação da Rosana: “Realmente foi um encontro muito especial. Comentei com Pedro como foi boa a reunião em todos os sentidos. O carinho e cuidado dos anfitriões, o café delicioso, a estreia do Gentil com suas contribuições e humor refinado, as surpresas criativas do Luiz, as contribuições sensíveis da Tânia, as ideias e ensino da nossa inspiradora Priscila. Mas sentimos muito a falta dos demais”.

Sobre o livro: Saramago conta a história de Cipriano Algor, um oleiro de 64 anos, viúvo, que vê a sua profissão desaparecer, por força do progresso, do capitalismo, das inovações tecnológicas. Em resumo: Cipriano vê as peças de barro de produz – pratos, bilhas, cântaros – serem substituídos por outras, de plástico, mais baratas, mais duráveis. O romance tem como pano de fundo o mito da Caverna de Platão. “Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós”. (PLATÃO, República, Livro VII).

Mas, tão bom quanto ler o livro, foi o mergulho para conhecer melhor o escritor José Saramago. Escritor tardio (começou a escrever depois dos 60 anos), ateu, comunista, dono de uma inteligência brilhante e de um humor refinado, Saramago é tão interessante quanto seus livros. Nessa jornada vimos também o documentário “José e Pilar”, que registra o dia a dia do escritor e o seu amor por Pilar, jornalista espanhola com quem casou e foi feliz.

Flip 2017: Lima Barreto, uma voz que nasceu negra na literatura | Cultura | EL PAÍS Brasil

Em biografia de Lilia Schwarcz, escritor discute o racismo no Brasil recém saído da escravidão

Fonte: Flip 2017: Lima Barreto, uma voz que nasceu negra na literatura | Cultura | EL PAÍS Brasil

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15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty vai de 26 a 30 de julho com homenagens a Lima Barreto

Fonte: Flip 2017: a programação completa e tudo sobre a Festa Literária de Paraty | Cultura | EL PAÍS Brasil

USP disponibiliza acervo digital da Coleção Brasiliana, de José Mindlin

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São 3 mil livros raros da coleção do casal Guita e José Mindlin à disposição dos leitores. Podem ser acessados pelo celular ou tablet a qualquer hora e lugar, gratuitamente, por estudantes, pesquisadores e interessados de todo o mundo. E o mais importante: as obras já estão disponíveis para download.

Para acessar o acervo da Biblioteca Digital BBM basta digitar o endereço: https://digital.bbm.usp.br/

JOSÉ MINDLIN

José Mindlin  foi um repórter, empresário, advogado, escrito e bibliófilo brasileiro. Segundo o site WIKIPÉDIA, Mindlin, após sua aposentadoria do mundo empresarial, pôde dedicar-se integralmente a uma paixão que tinha desde os 13 anos: colecionar livros raros.  Ao completar 95 anos, acumulava um acervo de aproximadamente 40 mil volumes, incluindo obras de literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas (gravuras). Foi então considerada a maior biblioteca pessoal pessoal e também a mais importante do País.