Tertúlia Literária e Saramago

Uma vez por mês, nos reunimos na casa de algum amigo para conversar sobre um livro literário. Somos um pequeno grupo que compartilha o fascínio pelos livros. Nossas reuniões se iniciaram em 2016 a partir de um projeto de extensão criado por mim na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. O projeto foi tão bom que mesmo após o seu fim resolvemos dar continuidade fora da Universidade.

Clique aqui e veja a análise do livro “A Caverna”, de Saramago, nossa última leitura. O texto completo , com as impressões do grupo, está no blog “Litteratus“, da nossa colega Priscila Lima.

Livraria Leodegária

Estive na cidade de Goiás neste mês de fevereiro, com duas motivações: participar do projeto Quintal Medicinal, realizado no Mosteiro da de Goiás, pela Fraternidade da Anunciação e conhecer a Livraria Leodegária, que fica no tradicional Mercado Municipal de Goiás.

A livraria foi fundada em agosto de 2018, com o objeto de criar, na cidade de Goiás, um ponto cultural, um local de encontro entre livreiros, escritores, leitores e amantes da cultura em geral. A iniciativa foi das pro­fessoras Ebe Lima Siqueira, Edina Ázara e Goiandira Ortiz.

Um registro interessante: em entrevista concedida ao site PublishNews Goiandira comentou que a última livraria de que se tem notícia na cidade de Goiás funcionou na década de 1920. Sua iniciativa traz, pois, uma luz neste deserto de letras, ou melhor: neste deserto de livrarias.

O nome da livraria é uma home­nagem à professora e poeta Leode­gária de Jesus, primeira mulher no estado de Goiás a publicar um li­vro de poesias. Leodegária nasceu em 1889 e viveu na cidade de Goiás, tendo sido contemporânea de Cora Coralina, com quem trocou inúmeras figurinhas literárias, como, por exemplo, a fundação do jornal literário “Rosas”. Além de mulher, Leodegária era negra e publicou os livros “Corôa de Lyrios”, em 1906 e “Orchideas”, em 1928. Jovem, mulher e negra: nessa condição Leodegária enfrentou as tradições machistas de Goiás, vindo daí a homenagem que hoje recebe.

A Livraria tem hoje um acervo com 600 títulos.

GOANDIRA Ortiz, professora e livreira, nos recebeu com simpatia, falando do seu projeto, das suas expectativas e esperanças com a livraria. Comprei dois livros – “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa e “Tropas e Boiadas”, do nosso Hugo de Carvalho Ramos. Trouxe também alguns mimos: uma camiseta, uma caneca e um vidrinho de pílulas com a poesia de Cora Coralina. Vou tirar uma, vamos ver o quem dentro: “Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho / Seu cheiro gosto d’agua e sabão”.


A ilustradora Ciça Fittipaldi  esteve na Livraria divulgando livros de arte.

A Caverna

Tenho vários livros do escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura (1988), mas esta é a primeira vez que leio um deles, de ponta a ponta. Trata-se do livro “A Caverna”, publicado no ano de 2000. Outros livros – Memorial do Convento (1982), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a Cegueira (1995), A Viagem do Elefante (2008), Caim (2009), etc. – não foram lidos assim, de ponta a ponta. Foram lidos em parte, o primeiro capítulo, a orelha, alguns apenas folheados…

Mas agora, participando deste maravilhoso grupo de leitura – Tertúlia Literária, que vem se reunindo desde 2015 (veja lá no Instagram: #tertulianos2015) –, a coisa mudou de figura. Com a coordenação da psicóloga Priscila Lima, do blog Littetatus, a leitura ficou mais consistente, mais séria, um verdadeiro estudo, aliás, como deve ser. Tudo isso sem, naturalmente, excluir o prazer da leitura. Agora os livros são lidos até o último capítulo, ficamos sabendo como é o final da história…

A reunião para comentar sobre a obra do escritor Saramago aconteceu neste sábado – 16/2 – na casa da Drª Marluce, médica e apaixonada pela literatura, e foi uma das melhores. Veja a avaliação da Rosana: “Realmente foi um encontro muito especial. Comentei com Pedro como foi boa a reunião em todos os sentidos. O carinho e cuidado dos anfitriões, o café delicioso, a estreia do Gentil com suas contribuições e humor refinado, as surpresas criativas do Luiz, as contribuições sensíveis da Tânia, as ideias e ensino da nossa inspiradora Priscila. Mas sentimos muito a falta dos demais”.

Sobre o livro: Saramago conta a história de Cipriano Algor, um oleiro de 64 anos, viúvo, que vê a sua profissão desaparecer, por força do progresso, do capitalismo, das inovações tecnológicas. Em resumo: Cipriano vê as peças de barro de produz – pratos, bilhas, cântaros – serem substituídos por outras, de plástico, mais baratas, mais duráveis. O romance tem como pano de fundo o mito da Caverna de Platão. “Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós”. (PLATÃO, República, Livro VII).

Mas, tão bom quanto ler o livro, foi o mergulho para conhecer melhor o escritor José Saramago. Escritor tardio (começou a escrever depois dos 60 anos), ateu, comunista, dono de uma inteligência brilhante e de um humor refinado, Saramago é tão interessante quanto seus livros. Nessa jornada vimos também o documentário “José e Pilar”, que registra o dia a dia do escritor e o seu amor por Pilar, jornalista espanhola com quem casou e foi feliz.