Cláudio Mendes

O advogado e odontólogo Cláudio Mendes nasceu na cidade de Goiás, em 23 de agosto de 1.925, onde seus pais – Benedito Mendes e Doralice Póvoa Mendes – possuíam um pequeno armazém. Fez seus primeiros estudos no Lyceu de Goiás, ainda na antiga capital, transferindo-se em seguida para o Rio de Janeiro, onde em 1.949 concluiu o curso superior de odontologia, na Faculdade Fluminense de Medicina.

O advogado e odontólogo Cláudio Mendes.

Retornando ao estado de Goiás fixou residência na cidade de Anápolis, onde constituiu família e desenvolveu sua vida profissional, social e política. Casou-se, em 1.954, com a então bancária Maristela Duarte Mendes, com quem teve os filhos Luiz Carlos Duarte Mendes (1.956), Nádia Duarte Mendes (1.958), Luiz Roberto Duarte Mendes (1.960) e Luiz Eduardo Duarte Mendes (1.961). Aqui em Goiás fez o curso de Direito, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, colando grau em 1.958. Faleceu na cidade de Anápolis em 02 de junho de 1.965, aos 39 anos de idade e no auge de suas atividades profissionais e políticas.

Atividades profissionais

No Rio de Janeiro viveu entre os anos de 1.945 e 1.950 e, enquanto cursava a Faculdade de Odontologia, deu aulas e trabalhou na Caixa de Crédito Cooperativo, órgão ligado ao Ministério da Agricultura. No Rio de Janeiro fez um bom círculo de amizades, registrada em volumosa correspondência pessoal e foi colega de república dos goianos Omar Carneiro, Anuar Auad, Amim Antônio e dos jornalistas Waldir Amaral e João Saldanha. Apaixonado pelo futebol, era torcedor do Botafogo, clube onde foi remador durante algum tempo.

Em Anápolis, para onde se transferiu no começo da década de 50, iniciou as lides profissionais com um consultório odontológico instalado na Rua 15 de Dezembro nº 120, tendo nessa atividade carinho especial com crianças.

Após a conclusão do curso de Direito, em 1958, montou escritório de advocacia , instalado na praça Bom Jesus, nº 67, tendo como colegas de banca os advogados Fernando Cunha Júnior e Iram Vitoriano de Souza[1]. Advogou principalmente nas áreas comercial e trabalhista, tendo prestado serviços para a Associação Profissional dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas de Anápolis e para o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Brasília.

Atuou também no magistério, tendo sido professor na Escola de Comércio de Anápolis e na Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, onde lecionava Economia Política. Preocupado com sua própria formação intelectual, desenvolveu pesquisas na área de Economia Política, formou valiosa biblioteca e manteve intensa correspondência com livreiros e editores.

Ao lado dessas atividades, trabalhou também na área imobiliária e, pelo volume dos negócios que realizou, demonstrou ter sido um corretor vocacionado. Foi sócio da empresa JK Imóveis, em Anápolis, e posteriormente fundou as empresas Bolsa de Imóveis de Brasília Ltda (1.960) e Inca – Incorporadora e Administradora de Imóveis Ltda, esta última instalada em Goiânia, no ano de 1.963. Lançou, em Anápolis, os loteamentos Jardim Eldorado, Jardim Planalto e Setor Industrial, tendo ainda sido sócio da Gráfica Alvorada.

Atividades sociais

Possuidor de um temperamento afável, segundo contam seus contemporâneos, Cláudio Mendes valorizava a vida social e esportiva e foi membro do Clube Recreativo Anapolino, Jóquei Clube de Anápolis, Jundiaí Praia Clube (entidade que ajudou a criar), Clube Jaó, Anápolis Futebol Clube, Goiás Esporte Clube e Ipiranga Atlético Clube, clube pelo qual sempre lutou para fortalecer. Após sua morte foi homenageado pelo Ipiranga, que deu ao parque infantil instalado na sede social o nome de Cláudio Mendes.

Esta paixão pelo Ipiranga está registrada em artigo do jornalista Jauhyr Lobo, publicado no Boletim “O Craque”, editado pelo Departamento de Esportes da Rádio Imprensa, em 28/11/1965:

“Lembro-me, como se fosse hoje, daquelas memoráveis reuniõs da diretoria do Ipiranga em casa do saudoso Dr. Cláudio Mendes. Era mesmo ali, à Rua Manoel D’Abadia. Vários aspectos interessantes proporcionavam aquelas reuniões. Dificilmente os esqueço. Também pudera, vendo Dr. Cláudio Mendes, envergando seu tradicional pijama de cor branca, assentado à cabeceira da mesa dizendo do seu entusiasmo e da sua confiança no futuro brilhante do alvinegro; ouvindo o David Esteves ‘gozar’ as falhas e confusões lá pelos arraiais do Anápolis e da Anapolina; presenciando as exposições do Jair Fernandes quanto às possibilidades de sucesso; saboreando o cafezinho – sempre indispensável – que nos servia amavelmente Da. Maristela e, com estas e outras quem poderia esquecê-los? Claro que tenho razão para recordá-los…”

Atividades políticas

Cláudio Mendes participou da vida política brasileira e desde os tempos de estudante, ainda no Rio de Janeiro, atuou junto ao extinto Partido Comunista Brasileiro, o “Partidão”. Em Goiás defendeu com convicção suas ideias e participou ativamente da vida política local. Membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), fundou o jornal “Frente Popular”, lutou elo partido, defendeu o governo João Goulart e participou do governo Mauro Borges, onde ocupou o cargo de Chefe do Departamento Estadual de Saneamento. Com o advento do Golpe de 64 e em consequência de suas ideias políticas foi demitido do cargo, com base no Ato Institucional de 9/4/64, enfrentou uma prisão política, em Goiânia e veio a falecer em 2/6/1965, fulminado por um enfarte, em casa. Foi um homem do seu tempo e deixou uma vida ilustrada de exemplos de dedicação à família, ao trabalho, à comunidade e ao seu País. (Luiz Carlos Mendes / Texto redigido em 4/3/1.993)


[1] Fernando Cunha exerceu o cargo de deputado federal por Goiás por cinco mandatos consecutivos entre 1971 e 1992 e Iran Vitoriano de Souza ingressou na magistratura goiana, onde ficou até a aposentadoria.

O que é o esclarecimento?

Em abril de 1783 o jornal germânico Berlinische Monatschrift perguntava: O que é o esclarecimento? Diversas respostas foram enviadas, mas foi um ano depois, em dezembro de 1784, que o filósofo Immanuel Kant responderia a questão com um brevíssimo ensaio, que no entanto ficou famoso e teve o maior impacto dentre todas as respostas. Abaixo segue o texto na íntegra.

O filósofo alemão Immanuel Kant

Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento.

A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles. É tão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçarme eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela. Depois de terem primeiramente embrutecido seu gado doméstico e preservado cuidadosamente estas tranqüilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, no qual as encerraram, mostram-lhes, em seguida, o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas. Basta um exemplo deste tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo em geral para não fazer outras tentativas no futuro.

É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor a ela, sendo por ora realmente incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim proceder. Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou, antes, do abuso de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem deles se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este movimento livre. Por isso são muito poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender então uma marcha segura. Continuar lendo

Maristela Duarte Mendes, uma vida de luta e de coragem

Maristela Duarte Mendes, uma vida plena, de lutas e de coragem.

Este é um dia bonito, dia de Nossa Senhora de Fátima e dia da libertação dos escravos, disse uma pessoa, lá no velório. Pois foi nesta data que a nossa querida mãe, Maristela Duarte Mendes, completou seus dias aqui neste plano. Encantou-se. Seguiu seus caminhos espirituais. Advogada, militante política, escritora, mãe de quatro filhos, Maristela morreu com 89 anos, deixando muitos amigos em Anápolis, onde viveu quase toda sua vida.

Para conhecer melhor este vida de lutas e de coragem, publico a apresentação do livro “Viagem a Moscou”, onde conto uma parte deste história.

Viagem a Moscou – Apresentação – Por Luiz Carlos Mendes

Maristela nasceu Maria Stela, – nome que significa estrela -, no distante vilarejo de Sítio dos Nunes, no sertão de Pernambuco. Na década de 50 fez o caminho que muitos outros nordestinos já haviam feito: deixou o sertão e veio para o Sul, escolheu Goiás, escolheu Anápolis.

Aqui sua estrela brilhou, fez sua vida, casou, teve filhos, lutou, lutou muito. Lutou para estudar, para criar seus filhos, construir sua família e lutou contra a ditadura. Lutou e venceu.

Este livro conta uma parte desta história, conta uma viagem para Moscou. Para Moscou? Mas como? De Sítio dos Nunes para Moscou? Como foi isso?

Descendente de holandeses, Maristela nasceu em uma família grande, filha de Mariinha e Juvenal, e teve oito irmãos e irmãs. Isto foi em 1934, no dia 22 de julho, e na sua infância Maristela já demonstrava o brilho de sua inteligência, da vivacidade que marcou sua personalidade. Cresceu em um engenho de cana-de-açúcar, na pequena Sítio dos Nunes, onde a família produzia rapadura.

Lá no sertão aprendeu a ler e chegou a trabalhar. Mas ainda moça, sem perspectivas de crescimento, veio para Goiás lutar pela vida. Aqui aportou em Anápolis, onde trabalhou no Banco Hipotecário e depois casou-se com o advogado e odontólogo Claudio Mendes, um comunista de carteirinha, dirigente do Partido Comunista Brasileiro, que lhe deu quatro filhos e lhe ensinou o que era o capitalismo, a exploração do homem pelo homem.

E foi o casamento que levou Maristela para Moscou. Veja como foi: Claudio Mendes nasceu na cidade de Goiás e ainda jovem foi o Rio de Janeiro, onde se formou em Odontologia, na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Niterói, mais tarde incorporada à Universidade Federal Fluminense (UFF). De volta a Goiás veio para Anápolis, onde montou seu consultório, na Rua 15 de Dezembro e logo em seguida conheceu e casou-se com Maristela (uma pernambucana bonita e de dentes fortes). Do Rio trouxe, além do diploma de dentista, a paixão pelo Botafogo e a carteirinha do Partido Comunista Brasileiro.

Cláudio e Maristela viveram os dias intensos da vida política brasileira no governo de Juscelino Kubitschek, eleito em 1956 e que em 1960 inaugurou Brasília, a grande capital brasileira plantada em Goiás. Viveram os dias intensos do governo de João Goulart, as lutas do povo brasileiro e os sonhos de um comunista em Anápolis.

Sobre este período de sua vida, Maristela revela como surgiu a viagem para Moscou:

“Vim de Pernambuco para Goiás na década de 1950. Em 1954, casei-me com o odontólogo e advogado Cláudio Mendes, que faleceu em 1965. Com ele tive quatro filhos: Luiz Carlos, Nádia, Luiz Roberto e Luiz Eduardo. Como Cláudio era filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1963 ele me incentivou a participar do Congresso Mundial de Mulheres em Moscou, do qual participaram 54 brasileiras de todos os estados”.

O Golpe Militar de 64 interrompeu os sonhos e mudou o Brasil. Não saberemos jamais como seria o Brasil sem o Golpe, mas sabemos como foi o Brasil depois do Golpe. Vidas foram interrompidas e os planos mudaram: uma geração inteira viu os seus sonhos acabarem na prisão, na tortura, no exílio. Com Maristela não foi diferente e sua vidou mudou para sempre.

Cláudio, o companheiro de vida e de lutas políticas foi preso uma vez, duas vezes, foi torturado e não resistiu. Um enfarto tirou-lhe a vida, em junho de 1965, um mês depois de deixar as prisões do regime militar.

Viúva e com quatro filhos pequenos Maristela foi à luta. Já então morando na Rua Dona Doca, – endereço que nunca abandonou – Maristela, enquanto trabalhava para criar os filhos, retomou os estudos, fazendo o curso de madureza, a Escola de Comércio e finalmente o curso de Direito, na Faculdade de Direito de Anápolis (FADA), que concluiu em 1974, em uma das primeiras turmas.

Com o diploma de advogado, Maristela fechou o curso ABC, instalado em prédio próprio, na Rua Dr. Genserico, 252, e abriu o escritório de advocacia. Botou banca e advogou com brilhantismo por mais de três décadas, conquistando o respeito da comunidade jurídica anapolina e goiana. A carreira jurídica foi fecunda: fez cursos de Especialização na Universidade Federal de Goiás – Direito Agrário e Direito Processual Civil -, exerceu o cargo de Procuradora do Município de Anápolis e ainda fundou e presidiu por vários anos o Clube dos Advogados de Anápolis.

Muitas lutas e muitas vitórias. Formou os quatro filhos, dois advogados e dois odontólogos, uma espécie de homenagem ao Cláudio Mendes, odontólogo, pela Faculdade de Odontologia de Niterói, mas também advogado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, onde concluiu o curso em 1958 e logo em seguida deixou a odontologia para se dedicar à advocacia.

Esta vida de lutas teve os seus reconhecimentos, como o título de Cidadã Anapolina, concedido em 1982, pela Câmara Municipal de Anápolis. Nessa jornada há um outro título, de grande valor histórico e político: em 2006, Maristela foi anistiada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, um gesto que também foi estendido ao seu marido Cláudio Mendes. O Estado Brasileiro pediu desculpas formais, concedeu a anistia.

Este livro conta como foi a viagem a Moscou, uma parte desta história de lutas e vitórias. Maristela explica porque somente agora, depois de muitos anos, acontece a publicação da obra: “Somente agora foi possível publicar as impressões de viagem, porque, após 1963, aconteceu o Golpe de 1964. Como, na época, todos os comunistas foram perseguidos, mantive estes originais escondidos. Se os deixasse em casa, os militares teriam confiscado e destruído tudo, como fizeram com todos os livros que tínhamos. Esses originais ficaram em outra cidade e somente agora me foram devolvidos”.

Lembrando toda esta vida de luta e perseguições, a autora conclui: “Foi nesse clima de perseguição que me senti obrigada a esconder os originais sobre a minha participação no Congresso Internacional de Mulheres, na Rússia. Hoje, livre daquela ditadura, encontro-me anistiada pela Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002, e por isso mesmo posso publicar tudo que vi nos países socialistas. É o que vocês lerão nas páginas seguintes”.

O canto do galinho

O galinho já foi batizado: Aquiles…

Eram exatamente 5:02 da madrugada quando o galinho, quebrando o silencio da madrugada, cantou pela primeira vez naquele dia. Cantou bonito, várias vezes, o seu canto de galo jovem, pequeno. O galinho nasceu no nosso quintal, filho de uma galinha branca, cuidadosa, uma boa mãe. A galinha é branca, mais o galinho, que surpresa: é um galo vermelho, aquela cor tradicional dos galos caipiras. Como canta bonito! Traz alegria, conforto e paz.

Assim que mudamos para a chácara, que fica na periferia da cidade, providenciamos a construção de um galinheiro, bem feito, de alvenaria, cercado de telas, enfim tudo que uma galinha pode querer. Mas não foi assim. As galinhas preferiram a liberdade do amplo quintal e logo abandonaram o galinheiro, para ciscar o dia inteiro, neste vasto mundo que é o quintal da chácara, com seus bichinhos, com suas plantas. Ainda dormiram uns tempos no poleiro do galinheiro, mas logo o deixaram e hoje dormem no pé de mariri, uma planta mágica que fica bem em frente a casa.

O galinho cantador ainda não tem nome. Mas logo terá. Os bichos batizados, que recebem um nome, passam a fazer parte da família e, no caso das galinhas, ficam livres da possibilidade de ir para panela. Não se faz isso com um membro da família. Seria uma espécie de canibalismo!

Antigamente nas roças e nos terreiros reinava absoluto o galo índio, uma raça não definida, que foi se aprimorando na secular sopa genética dos quintais. É um galo bonito, vermelho, grande, muito apreciado pelos criadores. O nosso galinho é índio, para com uma característica especial: é um galo ‘tatuíra”, uma sub-raça também forjada nos quintais e que é fruto da mistura do galo índio normal com as pequenas galinhas da raça garnizé, uma raça bem pequena, miúda, mas muito valente.

Naquele dia o galinho cantou por uns vinte minutos e penso que agora está dando um cochilo final. Está esperando a Aurora, essa deusa mitológica que todos os dias, ao amanhecer, abre o portão do céu para a passagem da carruagem do Sol, em toda sua glória e beleza!

Morar na roça, perto da natureza, tem os seus encantos!

Niilismo e o mal-estar da cultura contemporânea

“O niilismo”, do filósofo italiano Franco Volpi

Na 5ª edição do Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano, publicada no Brasil em 2007, pela Editora Martins Fontes, o termo niilismo tem o seguinte significado: “termo usado na maioria das vezes com intuito polêmico, para designar doutrinas que se recusam a reconhecer realidades ou valores cuja admissão é considerada importante”.

O dicionarista exemplifica citando Hamilton e Nietzsche:

“Assim, Hamilton usou esse termo para qualificar a doutrina de Hume, que nega a realidade substancial (Lectures on Metaphysics, I, pp. 293-94); nesse caso a palavra quer dizer fenomenismo. Em outros casos, é empregada para indicar as atitudes dos que negam determinados valores morais ou políticos. Nietzsche foi o único a não utilizar esse termo com intuitos polêmicos, empregando-o para qualificar sua oposição radical aos valores morais tradicionais e às tradicionais crenças metafísicas: “O N. não é somente um conjunto de considerações sobre o tema ‘Tudo é vão’, não é somente a crença de que tudo merece morrer, mas consiste em colocar a mão na massa, em destruir. (…) É o estado dos espíritos fortes e das vontades fortes do qual não é possível atribuir um juízo negativo: a negação ativa corresponde mais à sua natureza profunda” (Wille zurMacht, ed. Krõner, XV, § 24)

Na 6ª edição do Dicionário o verbete foi expandido pelo professor e filósofo italiano Franco Volpi (FV), e o termo niilismo passa ter o seguinte sentido: “Este termo – do latim nihil – indica em geral uma concepção ou uma doutrina em que tudo o que é – os entes, as coisas, o mundo em particular os valores e os princípios –  é negado e reduzido a nada”.

Neste novo verbete, o professor Volpi também destaca a contribuição de Nietzsche para o desenvolvimento do tema. Mas o que é propriamente o niilismo para Nietzsche? Ao fazer ele mesmo a pergunta, Nietzsche responde: “Niilismo: falta-lhe a finalidade. Carece de resposta à resposta “para que?’ Que significa o niilismo? Que os valores supremos se desvalorizam” (VIII, 11,12).

Em seguida o professor Volpi comenta:

“Niilismo é portanto, o processo histórico durante o qual os supremos valores tradicionais – Deus, a verdade, o bem, perdem a valor e perecem. Tal processo é o traço mais profundo que caracteriza a história do pensamento europeu como história de uma decadência: o seu ato originário é a fundação da doutrina dos dois mundos por obra de Sócrates e Platão, vale dizer, a postulação de um mundo ideal, transcendente, em si, que, como mundo verdadeiro, é superior ao mundo sensível considerado como mundo aparente. Posta esta dicotomia que divide o ser em dois, está dada com ela a condição pelo qual o mundo verdadeiro, ideal, pede o valor e se desvaloriza até ser destruído e anulado”.

Para registrar a história do niilismo-platonismo, o professor Volpi menciona o texto “Como o mundo verdadeiro de tornou afinal uma fábula“, publicado no “Crepúsculo dos ídolos”, em que Nietzsche resume, em seis capítulos, a derrocada o “mundo verdadeiro” de Platão. Eis o texto:

  1. O mundo verdeiro alcançável ao sábio, ao piedoso, ao virtuoso, – ele vive nele, ele é esse mundo.
    • (Forma mais antiga da Ideia, relativamente inteligente, simples, convincente. Transcrição da proposição “eu, Platão, sou a verdade).
  2. O mundo verdadeiro, por enquanto inalcançável, mas prometido ao sábio, ao piedoso, ao virtuoso (“ao pecador que faz penitência”).
    • Progresso da Ideia: ela se torna mais sutil, mas capciosa, inapreensível, – ele se torna mulher, torna-se cristã…)
  3. O mundo verdadeiro, inalcançável, indemonstrável, imprometível, mas já enquanto pensado, um consolo, uma obrigação, um imperativo.
    • No fundo , o velho sol, mas entrevisto entre neblina e ceticismo; a Ideia se tornou sublime, pálida, nórdica, konigs-berguiana.)
  4. O mundo verdadeiro – inalcançável? Em todo caso, inalcançado. E enquanto inalcançado, também desconhecido. Por conseguinte, também não é consolador,redentor, obrigatório: Para o que algo desconhecido poderia nos obrigar?…
    • (Manhã cinzenta. Primeiro bocejo da razão. Canto de galo do positivismo.)
  5. O “mundo verdadeiro” – uma Ideia que não é mais útil pra nada, que nem mesmo obriga, – uma Ideia que se tornou inútil, supérflua, por conseguinte, uma Ideia refutada: eliminemo-la!
    • (Dia claro; café da manha; retorno do bon sens e da jovial serenidade; vergonha de Platão; ruido infernal de todos os espíritos livres.)
  6. Abolimos o mundo verdadeiro: Que mundo restou? Talvez o mundo aparente? … Mas não! com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!
    • (Meio-dia: Momento do mais curta sombra; Final do mais longo erro; Ponto culminante da humanidade; INCIPIT ZARATHUSTRA [Zaratusta começa].)

Depois de registrar a história do conceito, pelas palavras de Nietzsche, o professor Volpi conclui:

“A presença assim difundida do niilismo – palavra até há pouco tempo reservada a poucas vanguardas – permite entender que ele é a expressão de um profundo mal-estar da cultura contemporânea, que no plano histórico-social é acompanhado pelos processos de secularização e racionalização, ou seja, de desencanto e estilhaçamento da nossa imagem do mundo, e sobre o plano filosófico provou a disseminação do relativismo e de ceticismo em relação às visões de mundo e aos valores últimos. Seja qual for a atitude assumida diante dele, de aceitação ou de rejeição, qualquer um pode ver quanto a história do século XX encheu este termo, outra tão abstrato, “de substância, de vida vivida, de ações e de dores (E. Jünger).

Professor Franco Volpi

O professor Franco Volpi, responsável pela redação do verbete, nasceu em Vicenza, na Itália, em 1952, onde faleceu em 2009.  Filósofo, professor de história da filosofia, é autor de várias obras, entre quais “Niilismo”, publicado em português por Edições Loyola. Assim como Camus, morreu aos 47 anos de forma trágica: foi atropelado quando andava de bicicleta.

Bibliografia

Abbagnano, Nicola. Dicionário de filosofia. 6º ed., São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Nietzsche, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos ou Como se filosofa com o martelo. Petrópolis, RJ : Vozes, 2014.

Volpi, Franco. O niilismo. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1999

O absurdo na vida de Camus

Alberto Camus, escritor franco-argelino.

Camus, que nasceu na Argélia, entre a miséria e o sol, teve uma vida marcada pelo absurdo, filosófico e existencial. O seu primeiro confronto com o destino, com o absurdo desta vida, foi, paradoxalmente, um encontro com a morte, a morte do pai. A morte do pai é sempre dolorosa, mas para uma criança é uma ausência sem sentido, que marca para sempre, um verdadeiro absurdo.

Mais adiante um outro absurdo: a tuberculose, aos 17 anos, na força da juventude, obrigando-o a abandonar sonhos e paixões, como o futebol. A tuberculose, de uma certa maneira, moldou a sua vida: não lhe permitiu a carreira de professor, como inicialmente planejado; condicionou a escolha de alguns lugares onde morou e trouxe uma certa pressa para a sua vida.

Com uma expectativa de uma vida curta, em razão da tuberculose, tudo se tornou urgente e isso se refletiu na sua precoce produção literária e filosófica. “A vida é curta e é pecado perder tempo”, diria Camus, em “O Avesso e o Direito”, o seu primeiro livro, escrito aos 22 anos.

Sobre esta questão assim se expressou o filósofo Michel Onfray, em entrevista à Revista Cult, nº 170, quando perguntado se a descoberta da tuberculose, aos 17 anos, havia modificado a visão de mundo de Camus:

“Sim. Não é possível alguém descobrir aos 17 anos que terá uma vida curta e decadente sem encarar de maneira particular sua presença no mundo, sem se dar conta de sua natureza trágica e absurda. Não podemos entender ‘O Mito de Sísifo” sem colocar em perspectiva esta informação”.

Outro absurdo: tendo nascido entre analfabetos, é agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, não por um livro excepcional, mas pelo conjunto da obra. Não deixa de ser um absurdo.

Finalmente, o mais trágico de todos os absurdos, aquele que encerrou sua vida. Absolvido da condenação de morrer pela tuberculose, como estava racionalmente previsto, Camus – cheio de planos, com um novo romance em andamento – encontra a morte de forma inesperada, em um acidente de automóvel. Uma morte súbita, irracional, um verdadeiro absurdo! Assim, não é estranho, portanto, que Camus tenha explorado com tanto talento este tema em sua obra.

A peste é um castigo divino

Justiça seja feita: a peste não é coisa do diabo, ela é coisa de deus, uma das armas prediletas de deus. O diabo, como se vê nos memes que circulam na internet, gosta é de rock e de mulher pelada, quer dizer, de música e do corpo. Lembra daquelas festas em homenagem a Dionísio, lá na Grécia? Eram como o diabo gosta: muita música, poesia, teatro, vinho, mulheres, muitas mulheres, verdadeiras ninfas. Quem sempre aparecia por lá era o sátiro Pã, com seus chifres encaracolados e sua flauta mágica.

Albert Camus ao lado de uma das edições do livro “A Peste”

Quem gosta de peste, epidemias, pragas, essas coisas, é deus. Há muito tempo deus usa a peste contra os seus inimigos, como fez lá no Egito, para derrotar o faraó, considerado seu inimigo, porque impedia a saída do seu povo daquelas terras. Naquela época deus usou várias armas: primeiro transformou a água do rio Nilo em sangue e depois lançou outros flagelos, como a  invasão de rãs, piolhos, moscas, morte do gado, chagas, chuva de pedras, nuvens de gafanhotos, trevas e morte dos primogênitos. Foi um horror!

Em outra ocasião, mais recentemente, na cidade de Orã, deus usou uma praga terrível, que matou milhares de ratos e centenas de homens, mulheres e crianças. E o que é pior: a cidade ficou muitos meses sitiada, com o porto fechado e seus habitantes não podiam entrar e nem sair. Um pouco parecido como que está acontecendo nos dias de hoje, em que as pessoas, por ordem do governo, estão em quarentena e não podem sair para estudar, para passear e nem mesmo para trabalhar.

HOJE, A VERDADE É UMA ORDEM

O padre Paneloux, jesuíta, “defensor ardoroso de um cristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados”, viveu em Orã naqueles dias e em um sermão realizado com a catedral lotada de fiéis e curiosos, apontou a origem divina da peste e o caráter punitivo do flagelo.

No sermão o padre explicou que há muitos séculos, no tempo em que Jesus ainda andava entre nós, mas antes de começar a fazer seus milagres, Deus havia exortado os homens, pela palavra de um parente de Jesus, João Batista, que pregava no deserto: “arrependei-vos, enquanto é tempo. Endireitai as suas veredas”.

Mas os homens fizeram ouvidos moucos e consideraram que a visita dominical à catedral fosse suficiente para agradar a Deus. Mas, não: era preciso o arrependimento dos pecados. Depois de muito tempo, passados muitos séculos de espera, Deus, na sua imensa bondade e misericórdia,  perdeu a paciência. E fez como já fizera outras vezes, na época do Dilúvio, no Egito, em Sodoma e em tantas outras cidades onde imperou o pecado: recorreu aos seus flagelos, as suas pragas, para tocar o coração do homem.

O sermão do padre Paneloux está registrado em um livro do escritor A. Camus, o argelino vencedor do Prêmio Nobel de 1957 e que, por uns tempos, viveu em Orã. O sermão começa com uma acusação gravíssima: “Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes”. Transcrevemos em seguida as palavras do padre Paneloux, que citou o texto do êxodo relativo a peste do Egito e disse:

«A primeira vez que este flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos e a peste o faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditais sobre isto e caí de joelhos.”

Paneloux endireitou-se então, respirou profundamente e continuou, num tom mais veemente:

“Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas os maus têm razão para tremer. Na imensa granja do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do grão. Haverá mais joio que grão, mais chamados que eleitos e essa desgraça não foi desejada por Deus. Por longo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousou na misericórdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todos se sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, o mais fácil era deixar se levar, a misericórdia divina faria o resto. Pois bem! Isto não podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade o seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acaba de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!»

Ao fim deste longo período, o padre Paneloux parou, com os cabelos caídos sobre a fonte, o corpo agitado por um tremor que as mãos comunicavam ao púlpito, e prosseguiu, mais surdamente, mas em tom acusador:

Sim, chegou a hora de refletir. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com vossos dias livres. Pensastes que algumas genuflexões pagariam suficientemente o vosso desleixo criminoso. Mas Deus não é fraco. Essas atenções espaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. Ele queria ver-vos mais tempo, é a sua maneira de vos amar que é, a bem dizer, a única maneira de amar. Eis por que, cansado de esperar a vossa vinda, deixou que o flagelo vos visitasse, como visitou todas as cidades do pecado desde que os homens têm história. Sabeis agora o que é o pecado, como o souberam Caim e seus filhos, os de antes do Dilúvio, os de Sodoma e Gomorra, Faraó e Job e também todos os malditos. E, como esses o fizeram, é um olhar novo que lançais sobre os seres e as coisas, desde o dia em que esta cidade fechou os seus muros em torno de vós e do flagelo. Sabeis agora, finalmente, que é preciso chegar ao essencial.”

 “Muitos dentre vós, bem o sei, perguntaram a si próprios aonde quero chegar. Quero fazer-vos chegar à verdade e ensinar-vos a vos regozijar, apesar de tudo o que vos disse. Passou o tempo em que os conselhos, uma mão fraterna eram os meios de vos guiar para o bem. Hoje, a verdade é uma ordem”. 

Carta do leitor: “O homem invisível”.

Carta publicada no jornal O Popular”, no dia 02/03/2020.

Senhor Redator,

O Popular publicou, na edição do dia 21/02/2020, matéria com o morador de rua Luiz Ribeiro Ramos, o “homem invisível”,  que aos 66 anos obteve o seu primeiro documento civil, a Certidão de Nascimento, passando assim a ter existência legal. Luiz Ramos vive em condições  sub-humanas, tendo apenas a companhia de dezesseis cachorros, em um “local”  coberto de lixo e umidade. “Não há casa e nem barraco”, esclarece a reportagem do jornal.

A condição de “homem invisível” revela a ausência absoluta dos direitos básicos de qualquer cidadão, previstos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na própria Constituição Brasileira. Ao morador de rua Luiz Ramos, que até então não poderia ser chamado de “cidadão”, foram negados, entre outros, os seguintes direitos: o direito à dignidade, à igualdade, à moradia, à educação, à saúde, à cidadania (nesse caso, ilustrada pela falta de documentos). Cumprimento o jornal pela matéria e aos órgãos púbicos envolvidos no apoio ao novo cidadão, especialmente a Defensoria Pública e a Secretaria de Segurança Pública.

Ler é uma atividade de formação e transformação

O filósofo lendo, de Rembrandt

Segundo Hadot, ler é um exercício espiritual e nós devemos aprender a ler, isto é, “parar , libertarmo-nos de nossas preocupações, voltar a nós mesmo, deixar de lado nossas buscas por sutilezas e originalidade, meditar calmamente, ruminar, deixar que os textos falem a nós”.

Hadot diz ainda que a leitura é um exercício espiritual dos mais difíceis e cita Goethe:

“As pessoas”, diz Goethe, “não sabem quanto custa em tempo e esforço aprender a ler. Precisei de oitenta anos para tanto e sequer sou capaz de dizer se tive sucesso” (Goethe, “Entretiens avec Eckermann”, 24 de janeiro de 1830).

Ainda sobre os exercícios espirituais, diz Hadot:

“É nas escolas helenísticas e romanas de filosofia que o fenômeno é mais fácil de observar. Os estoicos, por exemplo, declaram-no explicitamente: para eles, a filosofia é um “exercício”. A seus olhos, a filosofia não consiste no ensino de uma teoria abstrata, ainda menos na exegese de textos, mas numa arte de viver, numa atitude concreta, num estilo de vida determinado, que engloba toda a existência. O ato filosófico não se situa somente na ordem do conhecimento, mas na ordem do “eu” e do ser: é um progresso que nos faz ser mais, que nos torna melhores. É uma conversão que subverte toda a vida, que muda o ser daquele que a realiza. Ela o faz passar de um estado de vida inautêntico, obscurecido pela inconsciência, corroído pela preocupação, para um estado de vida autêntico, no qual o homem atinge a consciência de si, a visão exata do mundo, a paz e a liberdade interiores”

Pierre Hadot (1922/ 2010) foi um filósofo, historiador e filólogo francês, especialista em filosofia do período helenístico e, principalmente, sobre o platonismo. Pierre Hadot recupera, em sua obra, a ideia da filosofia como um modo de vida. Ele é considerado um dos símbolos da intelectualidade francesa, influenciando Michel Foucault. Filólogo e filósofo foi diretor da École des hautes études en sciences sociales e professor no Collège de France, onde ocupou a cadeira de História do Pensamento Grego e Romano, consagrando-se professor honorífico.

Estudo

Raul Branco, estudante do esoterismo, com vários livros publicados, comenta sobre o valor da leitura e do estudo, no capítulo 20 do livro “Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã” (Editora Pensamento, 1999, p. 218).

“Mas a leitura não é unicamente uma fonte de conhecimento. Todo indivíduo que se debruça sobe uma obra séria a respeito de assuntos espirituais sabe, por experiência própria, que durante o período de estudo cria-se uma vibração sutil que tende a dirigir os pensamento para o alto. Como a vida espiritual é uma questão de mudança vibratória, em que a atenção do aspirante é direcionada das vibrações groseiras para as vibrações elevadas, o estudo presta-se maravilhosamente a este propósito”.

“O estudo também pode favorecer o desenvolvimento da intuição. Muitos estudiosas já tiveram a experiência de ‘insights’ intuitivos durante o estudo de assuntos em que estavam profundamente empenhados. Essas percepções são bastante comuns a cientistas, pesquisadores, filósofos e mesmo poetas e artistas, sendo o resultado do mergulho profundo nas questões a que se dedicam, pois quando a menta está totalmente concentrada, num determinado momento consegue ser transcendida, alcançando-se assim, o plano intuitivo da verdade pura”.

Raul Branco conclui o seu artigo citando o Apocalipse, atribuído a João:

“E a voz que eu do céu tinha ouvido tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.

E fui ao anjo, dizendo-lhe: Dá-me o livrinho. E ele disse-me: Toma-o, e come-o, e ele fará amargo o teu ventre, mas na tua boca será doce como mel.

E tomei o livrinho da mão do anjo, e comi-o; e na minha boca era doce como mel; e, havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo”. (Apocalipse 10:8-10).

Pensar por si mesmo

Caricatura de Arthur Schopenhauer, por Wilhelm Busch

O filósofo alemão Schopenhauer, no livro “A arte de escrever“, adverte, no entanto, que a leitura não é um substituto do pensamento próprio e por isso deve ser seguida pelo ato de pensar, de pensar por si próprio.  Segundo o filósofo, a leitura de muitos livros pode servir apenas para mostrar quantos caminhos falsos existem e como uma pessoa pode ser extraviada se revolver segui-los. “Mas aquele que é conduzido  pelo gênio, ou seja, que pensa por si mesmo, que pensa por vontade própria, de modo autêntico, possui a bússola para encontrar o caminho certo” 

Pensar por si próprio, segundo se depreende das lições de Schopenhauer, significa pensar de modo próprio, autêntico, mediante o desenvolvimento de um sistema de pensamento, que vai crescendo e se desenvolvendo com o tempo, com as suas meditações, com os seus encontros com a verdade. 

Ter pensamentos próprios implica ainda em desenvolver capacidades como a imaginação,  a memória, o raciocínio, a oratória, a retórica, entre outros instrumentos mentais que auxiliam a formação do pensamento.  A posse do seu próprio pensamento vai permitir a sua exposição de forma clara e espontânea, sem a muleta das anotações, dos power-points e outros recursos tecnológicos usados muitas vezes para substituir e ou mesmo suprimir os pensamentos próprios.

Ler significa pensar com uma cabeça alheia, em vez de pensar com a própria, adverte o filósofo alemão. “Nada é mais é prejudicial ao pensamento próprio – que sempre aspira desenvolver um conjunto coeso, um sistema, mesmo que não seja rigorosamente fechado – do que uma influência muito forte de pensamentos alheios, provenientes da leitura contínua”.

Bibliografia

  • Branco, Raul. Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã. São Paulo. Editora Pensamento, 1999.
  • Hadot, Pierre. Exercícios espirituais e filosofia antiga. São Paulo, Editora É Realizações, 2014.
  • Schopenhauer, Arthur. A arte de escrever. Tradução, prefácio e notas de Pedro Sussekind. L&PM, 2010

“Coringa”, um filme político, surpreendente!

 Coringa,  filme americano, de 2019, dirigido por Todd Phillips e estrelado por Joaquin Phoenix.

Além dos seus aspectos estéticos, que o credenciam para vários prêmios no Oscar, entre os quais, na minha opinião, o de melhor filme e o de melhor ator, o filme Joker (no Brasil, Coringa) tem um outro lado muito interessante, que a sua visão política.

O lado humano de um ser marginal

Veja bem. Depois de mais de 70 anos exaltando o Batman, o Cavaleiro das Trevas, um policial que está sempre em defesa do sistema, do capitalismo e dos homens de bem, o cinema americano, surpreendentemente, inverte esta lógica e mostra o lado humano de um ser periférico, de um ser tido como marginal, na verdade uma pessoa marginalizada pelo sistema.

Como bem ressaltou o sociólogo Jessé de Souza, (veja aqui) nesta luta entre o bem e o mal, desta vez foi feita a genealogia do “homem mau, do bandido, do marginal”. E, de forma surpreendente, como já ressaltei, no fundo do “homem mau” encontramos um ser humano comum, doente, sofrido e humilhado como milhares de outros homens comuns que compõe a nossa sociedade. O filme deu voz a estes humilhados e ofendidos, como diria Dostoiévski. Concluindo: um filme com uma narrativa política surpreendente e uma visão humana, demasiadamente humana.